Brasil compra da China medicamento suspeito e sem embasamento científico 

Gisélia Ferreira é farmacêutica concursada do Ministério da Saúde. Até o fim do ano passado participava do grupo que analisou a compra da Asparaginase fabricada na China. Um negócio de R$ 4,9 milhões. “São quatro mil crianças que vão utilizar esse produto pela primeira vez. Não existem experimentos no Brasil para saber se isso funciona”, diz a farmacêutica, Gisélia Ferreira.

A Asparaginase é o principal medicamento para o tratamento da Leucemia Linfoide Aguda, (LLA), um tipo de câncer que ataca crianças e adolescentes. A principal crítica feita pela farmacêutica, é a falta de estudos que comprovem a qualidade e a eficácia do medicamento chinês. “Os documentos até o momento que eu acompanhei, não demonstraram segurança nenhuma de se adquirir esse medicamento chinês. Nenhuma segurança pela falta dos estudos clínicos, pelo próprio registro do produto ser químico, ser sintético, não ser biológico. Não só na literatura mundial, mas como o próprio Brasil sempre utilizou para o tratamento de LLA a Asparaginase biológica”, diz a farmacêutica.

O processo de fazer um medicamento sintético, é muito mais simples do que de um biológico que envolve o uso de células vivas para a produção das moléculas do remédio. O nome de marca das Asparaginase chinesa é Leuginase. No país de origem, segundo a farmacêutica, o remédio não tem o registro biológico. “Na China ele foi registrado como medicamento químico”, diz a farmacêutica.

Quando ainda estava no Ministério da Saúde, Gisélia estudou o uso da Asparaginase em mais de cem países. Todos segundo ela, usam a Asparaginase biológica. “Nenhum Ministério da Saúde do mundo compra Asparaginase sintética. Essa Asparaginase que está sendo comprada pelo Brasil, nenhum Ministério da Saúde do mundo comprou. O fabricante declara que ela é biológica, mas o fabricante não tem a competência de declarar, ele tem que ter o registro. É o registro da agência chinesa que deve registrar o medicamento. Se ele não tem um processo biológico ele não vai obter um registro de medicamento biológico”, diz Gisélia.

Aqui no Brasil o laboratório chinês é representado pela empresa uruguaia, Cetley S.A.. A empresa uruguaia declara que o medicamento é biológico. O endereço da Cetley no Brasil funciona em uma simples casa. No endereço consta uma empresa de contabilidade que funciona em Barueri na grande São Paulo.

Em Montevidéu foi constatado que a empresa não funciona no endereço que está no site da Cetley. A empresa foi convidada a dar entrevista. Em nota, a Cetley diz que apesar de sentir-se honrada pelo convite os diretores não poderiam dar entrevista por estarem fora do país. A nota ainda informa que a empresa vai se manifestar em momento oportuno próximo, a fim de apresentar todas as explicações técnicas, bem como os resultados clínicos laboratoriais, a fim de elucidar definitivamente quaisquer dúvidas sobre o medicamento.

E são muitas as dúvidas entre os especialistas em tratamento de câncer infantil. As principais entidades do setor querem saber quais os estudos que embasaram a compra das Asparaginase chinesa pelo Ministério da Saúde.

 

Veja também: O risco de anti-inflamatórios à saúde.