A companhia Gol pagará indenização milionária aos índios caiapós em um acordo inédito

Em uma visita a aldeia Metuktire, o cacique Raoni líder dos Caiapós, que ganhou fama internacional nos anos 80 ao defender a preservação da Amazônia ao lado do cantor inglês Sting, explicou em uma entrevista que o impacto do acidente foi tão grande para o seu povo, que eles tiveram que construir uma nova aldeia, bem longe do local onde caiu o avião.

O acidente com o Boeing 1907 foi em 2006, e até hoje, os destroços do avião estão espalhados por uma área de 20 km², incluindo uma parte do território indígena.

A mata fechou completamente onde era a antiga aldeia Caiapó. Lá viviam cerca de 50 famílias. A aldeia tinha farmácia, uma escola, várias ocas e muitas áreas de plantio. Depois da queda do avião da Gol, os índios abandonaram tudo.

Na época do acidente, o cacique Bedjai Txucarramae, ajudou no trabalho das equipes de resgate. Ele disse que os índios abandonaram a aldeia após o acidente, porque os destroços do avião passaram a poluir as terras da aldeia e também porque os espíritos das pessoas que morreram no acidente, continuam no local. “As pessoas ficam onde elas morrem. Abandonamos e agora ninguém mais pisa ali”, disse o cacique.

Os caiapós queriam que os destroços do avião fossem removidos, como isso não aconteceu, os indígenas decidiram se mudar e a nova aldeia demorou dois anos para ser construída. No meio do ano passado, a comunidade procurou o Ministério Público Federal de Mato Grosso pedindo ajuda. Eles queriam uma indenização pelos transtornos sofridos desde a queda do avião. “Ficou lá todo aquele material do acidente, a chuva molha e joga tudo no rio. Nós ficamos com medo de comer os animais, principalmente o peixe. Nós ficamos preocupado com nossos filhos”, disse um dos caciques da tribo, Painkro Metuktire

A pedido do Ministério Público, uma equipe de antropólogos, se reuniu durante dez dias com os índios e produziu um laudo técnico da citação. Os caiapós disseram que apesar da região do acidente ser rica em alimentos, eles não voltariam a usá-la, porque ela teria virado uma cidade dos espíritos.

Marco Paulo Schettino, antropólogo do Ministério Publico Federal disse: “Um acidente com 154 mortos é uma coisa de grande impacto naquele contexto. Por razões culturais de ordem religiosa espiritual, também há uma atribuição de que aquela área se torne um cemitério”. Os caiapós pediram uma indenização de R$ 4 milhões e a Gol aceitou pagar.

Wilson Rocha Fernandes Assis, procurador da República, disse: “Eu não tenho notícia de um acordo desse tipo no Brasil. Estamos indenizando um dano de natureza imaterial, cuja a explicação passa por questões espirituais, por questões religiosas da comunidade indígena”.

A assinatura do acordo reuniu representantes do Ministério Público, da Gol, além de caciques e jovens lideranças da comunidade. O dinheiro será entregue ao instituto Raoni. Segundo o cacique, a indenização será usada na construção de casas mais resistentes, um posto médico com alojamento exclusivo para os índios e na compra de remédios.

O Ministério Publico e a Funai, vão fiscalizar o uso do dinheiro. Segundo o acordo, a partir de agora a Gol deixa de ser responsável pela remoção dos destroços, limpeza da área, realização de estudos ou qualquer compensação adicional aos índios. Sobre os problemas ambientais relatados pelos índios, a Gol não quis divulgar os resultados de uma análise feita por peritos, contratados pela própria empresa.